Espere o telefone tocar. Mas não deixe de trabalhar
Eu realmente pretendia dormir. Estava me preparando, desligando o computador e a televisão quando a Luciana me veio com esta história, que logo mais vou lhes contar. Tentei deitar. Rolei na cama, pensei, pensei e pensei. Fiquei imaginando a vida do pernambucano Tassiano, que me servia saquê com gelo durante minha lua de mel. Nas outras famílias pernambucanas, de Palmares, que estão de baixo de chuva hoje recolhendo o pouco da pobreza que lhes restou. Lembrei também da vida da empregada doméstica lá da casa da minha mãe, dona Juvina.
Pensei, como todo clichesista há de pensar um dia, na pobreza do próximo. No sustento de cada um. Pior, no que cada um faz para sustentar-se. Enfim, é clichê, mas me fez pensar. E, egoísta como sou, resolvi passar para vocês – quem sabe não só eu me incomode.
Pois bem, a rádio Nativa tem uma promoção diária chamada “O cofre da Nativa”. A brincadeira se resume em o ouvinte acertar os números divulgados pelo locutor nas primeiras horas do dia. O locutor diz a seqüência de números e meia hora depois liga para a casa de um alguém que se cadastrou há uma semana ou há cinco anos (vai da sorte). Se esse alguém não acertar, na próxima hora pode ser a sorte de um outro alguém. São duas oportunidades por dia e se ninguém acertar, mais cem reais vão para o cofre. Isso acontece dia após dia, com Copa ou sem Copa, semana após semana, com eleição no país ou sem eleição.
Ontem, terça-feira, o cofre estava acumulado em R$ 1400 reais. Uma senhora de Morro Grande – bem periferia de São Paulo – foi a ganhadora do prêmio. Ela havia se cadastrado há anos. Hoje ela foi receber o prêmio na rádio e conversou com a Luciana.
Disse que ouvia a rádio todos os dias, que rezava para ser sorteada e que anotava sempre os números. Falou sobre sua crença em Jesus – é evangélica – e como sua fé fez aquele telefone tocar. “A primeira ouvinte era de Pirituba e ela não sabia a combinação do cofre. Pensei nessa hora: `o senhor, por favor, é tão pertinho da minha casa. O que custa essa ligação cair aqui?’”. Pois bem, a ligação caiu na casa dessa senhora uma hora mais tarde.
Ela, diz a Luciana, não conseguia falar outra coisa no telefone com o locutor que não fosse: amém, amém, amém. Glória a Deus. Glória a Deus. “Mas a senhora sabe a combinação? Tem que me falar”, dizia o locutor. Ela disse e ganhou o dinheiro. Pouco? Muito? Mil e quatrocentos reais.

Segundo a Luciana, essa senhora, a qual eu não me lembro o nome e a Luciana, que poderia me dizer, está dormindo ao meu lado – acho um pouco inconveniente acordá-la -, trabalha com borrachinhas para motos. Isso mesmo! Elas faz borrachinhas que vão nas peças de motos.
São mil borrachinhas para receber 12 reais. Ela produz, se trabalhar o dia inteiro e não parar para fazer comida ou limpar a casa, 400 dessas peças. Isso dá cinco reais por dia. Seguindo essa conta, ela deveria trabalhar incansavelmente por 291 dias seguidos ou 9 meses e meio – contando finais de semana – para receber o que recebeu nessa ligação.
Tem vezes que a fé move montanhas. E tem vezes que o telefone toca com uma boa notícia, demore o que demorar. Basta ter esperança. É isso.


